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Frio quente

Eis que estamos quase a chegar ao momento de entrada do inverno. Finalmente os dias deixam de encolher, ainda que de forma ténue, o regresso da claridade dá-me alento! “Já não falta tudo…” O inverno é denso, intenso e prolongado embora tenha o mesmo tempo que todas as outras estações. É o que agrega que o torna tão difícil, tudo morre no inverno para renascer na primavera, mas mesmo que simbólica esta “morte” é um profundo período de reflexão. Somos obrigados a parar para pensar, para nos agasalhar, para nos proteger, para refletir. A falta de luz obriga-nos a isso, a reclusão forçada é necessária para nos conseguirmos preparar para o que ai vem. A natureza sabe o que faz, nunca nada é em vão. Cada estação define os seus próprios desafios, e nós como parte integrante deste ecossistema natural, não ficamos de fora. O corpo vai-se adaptando a cada momento, na perfeição que só o relógio biológico interno sabe fazer. Não controlamos nada, fomos feitos como uma máquina perfe...

Na escuridão

“You know the day destroys the night Night divides the day…” (The Doors/ Break On Through) A luz mostra tudo, tudo o que esconde a escuridão. Tudo o que não queremos ver, mostra-nos.  É nas trevas que guardamos todos os segredos, é lá que asseguramos que fiquem. Mesmo quando o sol sobe sobre o horizonte fechamo-los no fundo da alma, para que não saiam, para que não se mostrem com a claridade. São só nossos. Tudo o que não se vê não existe. É como fechar os olhos e reviver tudo o que se viveu. No escuro do nosso olhar, vive-se outra vida, revive-se o mesmo momento vezes sem conta. O que não muda imagina-se de forma diferente, acrescentam-se pormenores, palavras que se deveria ter dito, gestos que se deveriam ter feito. Resguarda-se o instante num detalhe do tempo, que o corpo retém. No inverno as noites são longas e escuras, perpetuam o isolamento entre as pessoas. Encafuamo-nos em buracos sombrios, húmidos sem graça.  Vemos a vida passar, lá fora. Sentimo...

Ver com o coração

Espero na escuridão que chegues. Aguardo que me procures. Que sintas falta da minha presença no meio de todas as tuas ausências. Que queiras ouvir a minha voz. Que  a meio da madrugada me ligues só porque sim, porque não consegues dormir e queres falar comigo. Ou porque estavas a sonhar comigo e precisaste tornar o sonho real. Ou mesmo sem motivo, do nada só pelo desejo em fazê-lo.  E espero na escuridão, que os sons da noite se preencham com a tua voz ou com a tua presença. Aguardo em silêncio que a clarividência da verdade te chegue. Anseio pelo dia em que sintas o que tanto racionalizas, que te libertes de todos os medos e constrangimentos e concretizes. Calma e pacientemente aguardo que, despertes para o que tens em frente aos teus olhos e que deixes de ansiar por tudo aquilo que não sabes e que deixes de ignorar o óbvio.  O que fizeres hoje poderá trazer um amanhã melhor, sem precisares mudar de país, cidade ou planeta. Tudo está no sítio certo no momento...

Viver o presente!

Era uma vez. Sei que já escrevi várias vezes sobre este tema mas volto a insistir nele. De tempos em tempos, precisamos recuperar a esperança na vida, nas situações ou na humanidade. Dito assim parece muito, mas são pequenas histórias e detalhes que podem fazer toda a diferença e que podem salvar o dia, o mês ou até uma vida (em casos mais extremos). Os milagres acontecem, as histórias dos filmes acontecem, os inesperados bons acontecem… Nós sabemos isto, lá bem no fundo, sabemos disto. Mas quando as circunstâncias endurecem, fechamo-nos no fundo do poço e optamos por ver tudo com pessimismo, com dureza, tornando uma situação difícil num calvário. Para algumas pessoas, esta técnica resulta durante um tempo, criam a ilusão que estão resguardados de todas as maldades que ainda lhes poderão cair em cima, e assim vão desaparecendo sem deixar rasto. A pergunta que eu faço é: nasce vida nos buracos escuros? Podem dizer-me, sim nasce. E que espécie de vida? No fundo do mar, sabemos...