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Memórias Boas

E se as coisas tivessem acontecido de forma diferente? Fica sempre a dúvida no ar, como uma incerteza que se alimenta pelo vazio deixado. Podia ter sido diferente? Poderia ter sido diferente, se para a morte existisse algum tipo de retorno ou emenda. Mas não existe e foi assim que aconteceu e não se pode mudar. Ainda assim, sabendo e aceitando que teve de ser como foi, não muda a curiosidade que ficou por preencher nem a vontade de conhecer melhor alguém que nos quis tão bem. Sabe-se o que os outros contam e relembram-se partes do que se viveu. De lá para cá já passou uma vida, 27 anos de uma ausência que nunca se ocupa. Daquele ano horrível, tenho de ti duas memórias que me marcaram.  A primeira, a felicidade de fazeres 70 anos como se tivesses chegado ao topo da tua montanha! Sem saberes, estavas lá pronto para embarcares para outra aventura, genuinamente feliz por teres reunido a tua família para comemorar o teu aniversário. Sempre gostei de fazer anos e depois des...

Escolhas

Um exercício. Imaginem que têm três escolhas possíveis para um desfecho idêntico, uma meta. Se preferirem (para tornar o exercício mais visual) estão num cruzamento e pela frente têm três caminhos possíveis, a única coisa que sabem é que a distância em todos é igual (o caminho a percorrer até ao fim), mas não sabem como é cada percurso e quais a dificuldades que irão encontrar. Importante frisar que o irão fazer a pé, sem ajudas ou apoios de outros meios de locomoção e farão o caminho sozinhos. Como estamos no início do processo, todas as possibilidades estão em aberto e em pé de igualdade. São reais, são palpáveis e todas se podem concretizar em qualquer um dos caminhos. Nesta fase o primeiro desafio é deixar de lado qualquer juízo de valor, preconceito, ideia pré-concebida e tentar voltar à estaca zero – tábua rasa – para ficarmos o mais limpos possíveis que conseguirmos. Assim analisamos as possibilidades, como elas parecem ser, cada uma delas. No ponto de partida recebe...

1 ano sem ti

Sem darmos conta, passou um ano. O tempo é implacável nestas coisas, corre sem parar, mesmo que algumas coisas nunca mudem.  Quando se perde uma pessoa importante, nada muda, a não ser a distancia da ausência. O resto é imutável, só a saudade que cresce e se multiplica. A minha ultima avó partiu faz hoje um ano, numa manhã de Janeiro com sol que reservou a chuva e o frio para nos acompanhar nos dias que se seguiram. Deixou-se ir, numa rendição que se adivinhou nos dias que antecederam a sua partida. No fim-de-semana, dela só restava um pouquinho de luz, senti a vida a deixá-la com suavidade. Ainda era ela, falou só porque a chamei, despedi-me dela com um beijo, estava quentinha e   bem aconchegada como sempre. Só foi só possível vivermos o que vivemos, em todas as férias de Agosto com minha avó, porque ela era como era! Apesar de se arreliar com a nossa vida louca e do pouco tempo que passávamos em casa e a fazer-lhe companhia, tinha mais curiosidade em saber o que...

Avó Rosa

Quis o destino que a minha avó Rosa partisse hoje. A minha avó faz e fará sempre parte do legado de grandes mulheres que tenho tido o prazer de ter na minha vida. Apesar do seu mau feitio, génio e defeitos bem vincados que tinha, foi o pilar da nossa família sempre, papel do qual nunca de demitiu e que sempre cumpriu com zelo e dedicação.  Acima de tudo, a minha avó foi uma mulher que nunca baixou os braços para que as pessoas próximas tivessem ajuda no que fosse necessário. Não foi apenas o dinheiro que cedeu, foram acima de tudo os seus braços e o corpo que estiveram sempre disponíveis para acolher os que diversas vezes vieram ao seu socorro. Esteve sempre lá na febre alta, no portão do colégio, na praia, nos aniversários, festas e natal, a passar e lavar roupa como se o mundo acabasse amanhã se não o fizesse, a fazer os almoços entre aulas, as costeletas com pimentão e tudo o que cozinhava com mão de ouro, a enfiar os sabonetes de feno de Portugal no meio dos lençóis, n...