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Semear para colher

Estamos no tempo de colher o que estivemos a semear ao longo do ano ou a colher as coisas que temos vindo a fazer na e com a nossa vida. No entanto, uma vez que estamos nesta época do ano, ficamos mais sensíveis para considerar este tipo de balanço. Diria que pode e deve acontecer sempre que necessário e não porque termina um ano. Mas já que existe esta tradição, nada como lhe dar bom uso. Refletir sobre comportamentos, atitudes, vontades, desafios e por ai fora é sempre um exercício que vale a pena fazer. No fundo, todos os sabemos o que é certo e errado e se o que fazemos está dentro dessas critérios que temos pré-estabelecidos. Se não fomentamos laços com nada nem com ninguém, não vamos seguramente esperar que de um momento para o outro existam. E mesmo quando existem, se não os reforçamos, se não lhes dedicamos tempos e amor não vamos colher nada daí. Podemos até ser um terreno fértil e que facilmente cria empatia com os outros, cordialidade e simpatia aparente. Podemo...

Estação Certa

Nunca nos devemos apaixonar no inverno. Não te apaixones no inverno, não permitas que isso aconteça. De todos os males a evitar durante o inverno, este será um deles. Uma gripe evita-se com a medicação certa, agora quando se deixa o amor entrar na estação mais fria e escura do ano, não podemos esperar o melhor. São as probabilidades, a natureza não engana. Os animais hibernam, as árvores não têm folhas nem fruto, nada cresce no frio, na neve e sobretudo nada cresce na escuridão. Mesmo as criaturas que vivem nas profundezas dos oceanos, não sobem até à superfície para perto da luz, vivem confinadas na escuridão, crescem e desenvolvem-se nesse ambiente, como as doenças que se propagam no corpo. As pessoas que nascem no inverno são demasiado frias. Que amor poderá ser este que se estabelece no inverno? Devia existir um filtro bem espesso que evitasse que isto acontecesse. O inverno é necessário para a regeneração da natureza, o ciclo que se completa onde tudo morre, para ren...

Atalhos

Um dia percebes que conheceste a pessoa certa, no tempo errado. E não é um tempo errado qualquer, é viverem separados por dois anos: um em 2004 e outro em 2006. Ou viverem no mesmo tempo separados por quilómetros e a dez anos de distância, também acontece, mas não na história do filme que vou falar. No filme “A Casa do Lagoa” é isso que acontece. A Kate e o Alex viveram na mesma casa em tempos diferentes e partilham correspondência, segredos, confidências a acabam por se apaixonar. O que o filme mostra é que para haver amor, tem de haver profundidade e tempo para se descobrir e conhecer o outro. A diferença temporal, faz com que eles cedam com o conforto da distância a expor-se. São mais sinceros, mais verdadeiros, perdem o receio de falar sobre eles, do que gostam e das coisas que os atormentam. Claro que à medida que vão descobrindo que se estão a apaixonar, torna-se cada vez mais difícil gerir a distância e aprender a lidar com os sentimentos e com o desejo. A realidade ...

Caminho certo

Uma pessoa perde-se, e acha que está no caminho certo. Até que um dia, volta tudo atrás por instantes e percebe que não. Ser racional acabou com os teus sonhos? Não. Transformou-os. Foi pelo melhor, sim. Naquele contexto. E agora? Não podes continuar a fugir da verdade. Voltaste lá, não foi? Afinal esses sonhos, esse propósito maior ainda vive dentro de ti. Está ai dentro, em repouso absoluto, em anos de convalescença forçada. Tinha de ser, disseste. Tem de ser. Escolheste. Fizeste e seguiste o caminho racional. O caminho sem paixão, o caminho útil. Sem graça mas necessário. O melhor e mais certo. Para ti e para os outros. O convencional e aceitável. O seguro. Está feito. E agora? É conhecimento e experiência que não se perde. É mais um valor que tens. Mais um. E os outros valores do começo? Aqueles que vinham lá de longe? Aqueles que cresceram contigo e dentro de ti? Tiveste de ir ver e sentir o que é ter paixão por alguma coisa.  As coisas que só a ar...

Tarefas domésticas

Desde que tenho memória que é assim. As decisões e opções de escolha são factores inerentes à vida, não só na minha mas de todos. Era confortável quando os pais e os avós escolhiam o que tínhamos de comer e o que iríamos vestir. Deixava-me mais tempo para brincar e fazer o que quisesse sem ter de me preocupar com pormenores secundários. Que se lixasse se iria esfregar o vestido novo no cão ou no pó do quintal, coisas da vida! Quiçá destruir roupa nova a subir a uma árvore. Danos colaterais. Como estas coisas todas me chegavam às mãos ou à boca, sinceramente pouco me importava. Nas horas marcadas e quando era necessário havia sempre de tudo, o que era necessário: família, comida, roupa, dinheiro, saúde, férias, amigos, animais, bicicletas, roupa lavada, banho, calor e amor… nunca me preocupei com as proporções destas coisas. O que tive, sempre me chegou. Provavelmente não precisava de mais ou diferente. Na realidade só tinha de ser o que era, criança. Não esperavam que fosse de out...

Matemática

E então? Não são as máquinas que imortalizam os momentos. São as pessoas. A memória fixa pormenores. Os sentidos registam o resto. Eu guardo tudo. Faço questão de parar o tempo, sempre para te guardar em momentos só meus. Registo detalhes. Depois pego e construo as histórias como quero e dou-lhes o sentido que bem entender. O ser humano produz tanta coisa interessante para se guardar. Detalhes próprios de cada um. Nunca vejo o mesmo. Vejo sempre mais. Descubro sempre mais. Tens muito. Como eu. Longe dos olhares alheios, temos muito mais. Não somos apenas nós. Não somos apenas pessoas que se partilham.  Somos momentos de pessoas que se dão. Com gosto. Com vontade. Somos matemática complexa. Mas de resultado certo.

Equilibrar a balança

Os sinais de fraqueza que tanto gostamos de apontar nos outros, será que os temos em conta para nós próprios? E porque hei-de “morrer” por me arrepender? Pior aquele que não reconhece que errou ou aquele que não sabe pedir desculpa, dizer obrigado ou amo-te.  Não chorar, não é um sinal de fraqueza mas de sensibilidade. Fraqueza é chamar à atenção de alguém que chora fácil só porque nos achamos mais fortes e seguros. Deixem as lágrimas correr! Faz bem, liberta tudo o que está reprimido e mais além! Eu mantenho a teoria que se não fiz em determinado momento, qualquer coisa, foi porque achei que seria o melhor para mim, reconforta-me… mesmo que descubra mais tarde que me arrependi de não tê-lo feito ou ter feito (sim o arrependimento dá para os dois lados, se bem que nos vendem a ideia que fazer é melhor que não fazer, e quanto a mim depende de cada um!). De qualquer modo tem sempre uma justificação aceitável e plausível para mim, e isso chega-me. O passado ninguém muda, por ...

Substância

São os teus contornos que relembro.  A silhueta, o perfil a espessura da pele.  Pareces altivo, linear e coerente. Escondes a timidez com segurança. É forma como arrumas os teus braços que te denunciam. Tens um timbre certo, pausado e assertivo. Seguro. Nunca ficas fora de pé, mas sempre à procura do próximo mergulho. É a profundidade que te atrai. O desconhecido. Imperturbável. Os homens fingem muito melhor que as mulheres. Desligam-se com a facilidade com que se ligam. Não usam meios caminhos entre o sim e o não. Demoram a constatar o óbvio e entendem muito pouco as subtilezas. Não entendem os meios caminhos ou as meias palavras. São tolos. Não entendem como é difícil explicar tudo. O tudo é uma montanha de coisa difíceis de materializar. As palavras nem sempre transmitem substância. E substância é tudo o que não te falta. 

Perde o juízo e vem

Podia começar assim a chamada ou um simples pedido: perde o juízo e vem! Assim sem mais nem menos, sem grandes rodeios, directo e curto: perde o juízo e vem! E o peito enche-se de ar, o coração acelera, tudo treme e vai-se assim, sem juízo, sem rede, sem nada, só porque sim. Porque se perdeu o juízo numa qualquer loucura imaginária que se sente na pele, só porque naquele dia tínhamos de ser diferentes do habitual. E vai-se. Fechas os olhos e sentes cada bocadinho do juízo (aquele que tanto valorizas) a sair por todas as células, está a ir-se, vai-se purgar para mais tarde voltar, mas não hoje. Precisa redefinir-se para voltar melhorado, deixa-o ir, não penses muito. O suor escorre por todo o lado, é o medo de perder o juízo para sempre, para todo o sempre (mesmo não tendo garantias que o nosso juízo é saudável, é nosso…) o juízo que é meu por direito e conquista, está-se a ir, com autorização, porque eu hoje vou! Vou, vou e vou, está decidido. Mas não consigo sai...