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Terra de ninguém

Socialmente estamos integrados em grupos, comunidades, famílias, fazemos parte de alguma coisa nem que seja por afinidade. Aparentemente estamos ali e pertencemos aquele grupo. É assim que as coisas funcionam e que nos estruturamos entre nós.  Isto faz com que muitas vezes fiquemos cingidos a um espectro de pessoas, porque são universitárias como nós ou os conhecemos desde crianças e têm um percurso semelhante ao nosso, trabalham no mesmo ramo, os filhos andam no mesmo colégio, frequentamos os mesmos restaurantes e festas e por aí fora... E quando podemos estar em grupos e contextos diferentes, porque temos essa capacidade (de não excluir ninguém), mas na realidade não fazemos parte nem de um lado nem de outro?  É tramado! Não fazer parte de lado nenhum, o pertencer à terra de ninguém, é um bocadinho solitário. Entenda-se, não por vontade própria, mas por não se identificar. Juntando as parcelas pode-se ter fragmentos de todos os lados e não per...

Ver com o coração

Espero na escuridão que chegues. Aguardo que me procures. Que sintas falta da minha presença no meio de todas as tuas ausências. Que queiras ouvir a minha voz. Que  a meio da madrugada me ligues só porque sim, porque não consegues dormir e queres falar comigo. Ou porque estavas a sonhar comigo e precisaste tornar o sonho real. Ou mesmo sem motivo, do nada só pelo desejo em fazê-lo.  E espero na escuridão, que os sons da noite se preencham com a tua voz ou com a tua presença. Aguardo em silêncio que a clarividência da verdade te chegue. Anseio pelo dia em que sintas o que tanto racionalizas, que te libertes de todos os medos e constrangimentos e concretizes. Calma e pacientemente aguardo que, despertes para o que tens em frente aos teus olhos e que deixes de ansiar por tudo aquilo que não sabes e que deixes de ignorar o óbvio.  O que fizeres hoje poderá trazer um amanhã melhor, sem precisares mudar de país, cidade ou planeta. Tudo está no sítio certo no momento...

Os imprevistos

Os acasos, são sempre os acasos que me apanham. Sempre soube. Essencialmente os que não procuro. Todas as vezes que me demito de procurar, eles encontram-me. Cruzam-se comigo na rua. Apanham-me desprevenida mas acertam-me em cheio. Ganham quase sempre. Insisto em não deixá-los entrar. Sou teimosa Finjo que não guardo na memória bocadinhos e pormenores. Fecho os olhos para não ver o que não esqueço, mesmo que me esforce. O que os olhos não veem guarda o olfato. Não consigo apagar. Saio vencida e deixo que me consuma. É um caminho sem retorno. O meu mundo muda. Passo a gostar-te de gosto e de sabor. Entende como quiseres. Quase tudo muda, a realidade transforma-se. Crescem coisas. Cresce o desejo que se engrandece. Agiganta-se Um desejo que é: imutável, inalterável, permanente e todos os sinónimos que encontrares. Consome-me e consome-se, todos os dias na tua ausência. 

O Silêncio

Falo mas não sei o que digo. Não sei ao certo o que estou a dizer, saem palavras e gestos desarticulados. A cabeça pensa coisas diferentes do que diz a boca, os ouvidos ouvem tudo menos o que se está a dizer e o que se pensa, e nem por sombras se consegue ouvir o que fala a outra pessoa ao nosso lado.  Os olhos olham mas não veem, focam tudo o que está à volta sem acompanharem o movimento do corpo que se move de forma automática. Os olhos não refletem o que se sente. Fiquei assim desde daquele dia em que o silêncio tomou conta de nós. Como uma luz que se apaga sem aviso. Nunca me incomodaram os silêncios, compreendo-os como ninguém, aceito-os quase sempre sem questionar. São necessários. Eu preciso deles quase tanto como preciso de ti. Acontece muitas vezes este estado de estar tudo ligado e nada coordenado entre si. Especialmente quando se é mulher. Hoje incomoda-me o silêncio do desconhecimento. O que não sei, não posso sentir mas não é verdade. Eu não te...