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Coragem

Quiseste que se fizesse silêncio. Um silêncio forçado. Um novo interregno de dez ou mais anos. Quem está a contar?   Eu não, seguramente. Deixei de contar o tempo há muito tempo, passei apenas a deixar-me ir, como quem bóia no mar ao sabor da corrente e da ondulação. O que tiver de ser será. Sabemos disso.  Talvez o futuro seja mais generoso que o passado e possamos reajustar o que foi com o que é. Acreditar, que as suposições de hoje serão concretizações de amanhã e que nem toda distância do mundo nos irá conter.  Vou acreditar que seremos mais corajosos no futuro e que deixaremos a cobardia de antes e de agora bem longe das nossas intenções.  Vou aceitar que iremos cumprir os nossos desígnios com a grandiosidade que merecem. Vamos finalmente aceitar o inevitável de todas as improbabilidades e fintar o destino.  Hoje ainda não, manha ou depois...

A ordem natural das coisas

Afinal isto é o quê? Uma experiência cientifica para desbravar limites? Uma experiência sensorial? Ou apenas é o que é… Começa-se da esquerda para a direita e de baixo para cima, não se começa pelos inversos. E qual será o inverso? E o certo e o errado é o que está pré-definido ou podemos criar a nossa própria ordem? O principio é mesmo o principio? E quem definiu que o fim não pode ser o principio? Há questões físicas, químicas e matemáticas que nos explicam com precisão estas dúvidas? Deixar andar é mau? Ou devemos questionar tudo e todos? Afinal de contas não somos livres em todo o resto, apenas para pensar. Ai mando eu, ainda que dentro dos meus próprios limites… e não tenho quase nenhuns quando penso, deixo que vá onde quiser. O que conta é o que eu quero? Ou o que tu queres? O que me pedes ou o que eu aceito? Devemos sair das zonas de conforto, dizem. É verdade. E saindo? Já não se volta ao local de partida. E o que se segue? Ficar sempre no mesmo r...

Fruta da Época

É esporádico, mas quando acontece é monumental. É como a fruta da época, nem sempre há… mas quando está ali à nossa frente temos de nos lambuzar. Eu adoro melancia… mas não é por isso que deixo de lado as castanhas ou os morangos. Vivo os dias com a fruta da época, mas sem nunca esquecer que quando os dias aquecem vou ter a fruta que mais gosto para me lambuzar até à exaustão. E a melhor fruta do ano é a do Verão, quase todas são de comer e chorar por mais. A frutas e algumas pessoas têm o mesmo efeito. Nem sempre as vemos, nem sempre estamos com elas, nem sempre falamos com elas mas quando estamos queremos que os minutos se alonguem em eternidades que não existem, mas que queremos preservar para sempre. Horas curtas, loucas, intensas e marcantes como o doce ou o sumo da melancia. São sabores que nunca se esquecem, pessoas e momentos. A pele arrepia-se só de lembrar. Não é pela quantidade, é a experiência. Podem ser parcelas pequenas dos 365 dias do ano, nem um dia são...

É outra vez...Março!

Cá vamos nós outra vez! Eu e Março*, Março e eu…como o azeite e a água. Não se diluem. Toleramo-nos e aceitamo-nos. Não dá para ser de outra forma… não hiberno em Março, mas passamos um pelo outro como o meu cão Paco e a minha gata Berta. Sempre que se cruzavam num corredor ou num espaço mais apertado, cada um passava o mais encostado à parede possível para não se tocarem e quase nem se verem, umas vezes até passavam a correr um pelo ou outro, num momento ou outro um atacava o outro (coisas de cão e gato). Mas na maior parte das vezes, faziam um esforço imenso para se ignorarem, espiando pelo canto do olho os movimentos de cada um. Assim sou eu e o mês de Março. Não nos gramamos nem por nada… Não sou particularmente fã da Páscoa, os dias ainda são pequenos, está frio, é o mês de Peixes, é o fim do inverno e com o fim do inverno chegam outros fins que quis o destino ou a vida, marcassem a minha história pessoal e o meu mês de Março para sempre. O fim dos fins de pessoas...

Muse na Aula Magna: Abril 2002

Todas as bandas começam pelo principio e antes das multidões, existem estes espetáculos intimistas e inesquecíveis. Estava uma noite quente de tempo seco, a prometer recordações memoráveis. Os Muse foram uma descoberta da minha irmã, ela já ouvia e já conhecia muito antes de tudo. Aos poucos foi-me passando o bichinho e a coisa pegou. A loucura instalou-se quando descobrimos que vinham a Lisboa e corremos para comprar os bilhetes. A Aula Magna cheia para receber uma nova banda britânica, quase desconhecida. Tocaram como sempre de forma magistral o primeiro álbum, sem falhas, com som cristalino, envolvente quase como se tivessem a tocar na sala lá em casa. Sentia-se um nervoso miudinho de excitação, ninguém sabia o que esperar, mas contavam com o melhor! E assim se fez justiça! Foram bons, como provaram ser todas as restantes vezes! O concerto terminou com uma chuva de balões brancos gigantes que invadiram a aula Magna. Lembro-me de ter saído da sala aos trambolhões, est...