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Terra de ninguém

Socialmente estamos integrados em grupos, comunidades, famílias, fazemos parte de alguma coisa nem que seja por afinidade. Aparentemente estamos ali e pertencemos aquele grupo. É assim que as coisas funcionam e que nos estruturamos entre nós.  Isto faz com que muitas vezes fiquemos cingidos a um espectro de pessoas, porque são universitárias como nós ou os conhecemos desde crianças e têm um percurso semelhante ao nosso, trabalham no mesmo ramo, os filhos andam no mesmo colégio, frequentamos os mesmos restaurantes e festas e por aí fora... E quando podemos estar em grupos e contextos diferentes, porque temos essa capacidade (de não excluir ninguém), mas na realidade não fazemos parte nem de um lado nem de outro?  É tramado! Não fazer parte de lado nenhum, o pertencer à terra de ninguém, é um bocadinho solitário. Entenda-se, não por vontade própria, mas por não se identificar. Juntando as parcelas pode-se ter fragmentos de todos os lados e não per...

Uma casa vazia

Do lado de fora da porta, tudo igual. O mesmo tapete encostado no lancil da entrada, a porta maciça firme e sólida como sempre. Do outro lado um inexplicável vazio. Como é difícil entrar num dos espaços mais preenchidos da nossa memória, que agora se encontra vazio. São coisas, são objetos, a matéria, a pessoa que lá vivia não existe, por isso não faz sentido manter. Não nos pertence, nada do que ali está é nosso. É um ato de coragem, entrar. E entra-se. Entrei. Os espaços parecem incrivelmente mais pequenos, não devia ser o inverso? Ou é porque a alma mirrou no vazio? Ou é pelo eco das paredes? Não sei. Parece-me tudo muito mais pequeno, agora que o espaço está vazio, e antes atafulhado de tralha. Não sobrou nada, nem luz. Sobrou apenas o que não se conseguiu arrancar das paredes. Ainda se sente o cheiro da vida que ali vivemos, mas pouco. Nada daquilo faz sentido. Destemida e brava guerreira, é assim que eu acho que sou, mas não ali. Não naquelas circunstâncias. Caiu-me ...

Vazio

Perdi a noção do tempo. Não sei o que fiz hoje, ontem e esta semana.  Não sei quando te vi pela última vez. Não me lembro quando andei pela última vez de bicicleta. Não me recordo dos teus contornos ou cheiro.  Vivo os dias fora do tempo. Estou sempre um passo à frente. Desfasada da realidade e dos dias presentes. Não vivo no mesmo espaço temporal do resto da humanidade. O meu calendário segue um ritmo próprio. Alguns dias não se perdem irremediavelmente, repetem-se até funcionarem.  Dentro disto tudo, dão-se r eencontros com espaçamentos de vários anos que parecem que foram ontem. Vozes que nunca se esquecem. Viagens e momentos que se revivem vezes sem conta, não por saudosismo mas pela alegria contagiosa de felicidade. Sentimentos que não se esgotam. Ainda assim somam-se vazios. Perdem-se lembranças. Relativizam-se importâncias. Instauram-se buscas aos desaparecidos, mortos e vivos. Já ninguém sabe como é simples querer bem. Os espaços ficam ocos, va...

Existem vários tipos de solidão…

A solidão imposta, a solidão por vontade própria ou por circunstancias da vida. Sei que existem muitas pessoas que optam pela solidão de forma consciente e sentem-se bem com isso, mas para mim não faz parte da nossa natureza. Precisamos dela como reflexão, silêncio ou isolamento mas por um período de tempo e não em permanência, somos seres sociais, precisamos de companhia e de afeto. E é tão natural como respirar, é assim que somos. Nós os humanos precisamos de amor – primeiro do amor próprio que podemos encontrar na solidão, como uma importante conquista pessoal e imprescindível para aguentarmos o dia-a-dia, mas superando essa parte, precisamos uns dos outros para complementar a nossa vida. Somos uns com os outros e uns pelos outros… se não é assim, devia! A nossa sociedade não colabora neste ponto, empurra-nos para uma solidão não desejada e em alguns casos, quase forçada. Se pensarmos na nossa família percebemos logo isso, somos obrigados a trabalhar quase até morrer… quem toma...