Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta hoje

Ausência

O antes, na antevisão do que sabemos inevitável, é sempre um momento de preparação que nunca nos prepara verdadeiramente. Sabemos que as pessoas morrem, que os momentos não se repetem, que nunca mais vamos ter aquela idade ou voltar a viver aquele dia e por isso, no momento de reflexão sobre o presente, queremos absorver todas as sensações ao máximo e gozar a vida e a presença dos outros com entusiasmo. Na realidade não sabemos como é não tê-los, eles estão ali, palpáveis, fazem parte de nós e da nossa história. Só quando a ausência que as saudades bem marcam, se começa a sentir é que entendemos o exercício que fizemos no antes, e valorizamos o esforço que foi feito para gravar todas as sensações do instante. Antes, conscientes da importância não sabíamos o seu significado. Podemos imaginar como magnífico é o mar por fotografia...

Simplicidade

No fundo, o que esperamos da vida são um conjunto de coisas simples. Simples ao ponto de não nos causar mossa, de não nos deixar desconfortáveis, de não nos fazer sofrer ou chorar, de não nos deixar torturados por motivos vãos…viver com a simplicidade de respirar, só isso. Na impossibilidade de conseguirmos contornar as adversidades, porque quer queiramos quer não acontecem, podemos escolher vivê-las com peso, com dor, com sofrimento ou deixá-las fazerem o que têm a fazer, tentar não deixar que nos consumam ou que nos deixem imobilizados para viver a vida. Temos escolha, temos sempre escolha. Não viver não é opção… por isso, mesmo que os dias sejam cinzentos, duros ou dolorosos são passageiros. Mesmo que os períodos complicados sejam longos, serão sempre mais longos e penosos de acordo com a forma como os vivemos. Quando nos deixamos absorver pelo mau e pelo negativismo, minamo-nos. Passamos a viver com o domínio total do medo, do presente e sobretudo do futuro. Temos medo ...

Aqui e Agora

Hoje é assim. Vivemos projectados num futuro qualquer, que definimos. Achamos que se nos projectarmos ali, vamos conseguir contornar todos os obstáculos e dominar o nosso destino. É bom conseguirmos antever ou tentar, o que pretendemos, é como ver a cenoura na meta... se fossemos um coelho. Dá-nos um estímulo para fazer mais e melhor, para trabalhar com afinco, para lutarmos, para darmos o corpo às balas, para mexermos o rabo da cadeira, isso tudo. É bom termos alvos definidos ou pré-definidos, precisamos saber para onde vamos (às vezes) desde que isso não comprometa o presente. O presente é onde vivemos, é o aqui e agora. E a reforma? A doença? E daqui a um ano? E se morrer amanhã? Não vivi hoje. Não sou pessoa para achar que devemos andar à deriva, não me sinto confortável com essa ideia. Mas também aprendi que nem tudo está ao meu alcance ou que nem tudo é passível de controlo, de intervenção ou é para coordenarmos. A vida vive-se, precisamos deixar algum espaço para a ...

Tempos verbais

Falamos dos mortos como se estivessem vivos e dos vivos como se estivessem mortos. O queria, quero, quis sem saber na realidade em que tempo e espaço os devemos utilizar. Querias, já não queres? O quis que afinal é quero. O falar no passado quando se quer só o presente e um futuro garantido. Não saber qual o tempo certo, por estarmos algures na terra de ninguém, num vazio temporal sem ordem ou cronologia. É falar do passado como se fosse presente, como se estivéssemos a viver o que foi e não o que é. O passado não se constrói, está feito é um momento terminado, sem hipótese de correção ou emenda. Mas insistimos em transportar-nos para lá, como se essa viagem imaginária pudesse alterar alguma coisa. Os que morrem, não desaparecem continuam no presente como se estivesse ao nosso alcance falar com eles. E são, estão, vivem como se o tempo não tivesse terminado no dia em que fecharam os olhos para sempre, mais vivos que outros vivos. Os vivos que existem e respiram o me...

Até à lua...

Aquele momento em que te ligam de madrugada e percebes que ias ter com aquela pessoa nem que estivesse na Mongólia.  Mas não vais, ficas ali. Imóvel. Campainhas, soam campainhas. O sono atrasa-se para o dia a seguir. Na realidade nem pensas em nada. Ficas só, de olhos abertos a pensar se tiveste coragem porque disseste que não ou porque não disseste que sim. Querias ir. E irias. Mas não tens autorização para isso. Há que respeitar as regras. As coisas são como são. E tu aceitaste, assumiste como provisório. E era.  O teu caminho era outro. Ficou o aviso que irias partir, quando esse momento chegasse. Sem olhar para trás. E foram chegando várias ameaças que estaria para breve. Não aconteceram. Não estava destinado. Não resultou, não quiseste. Estes cenários só funcionam nos filmes ou quando nos dão autorização para isso. Não tens autorização. Não vais dizer que queres mais a quem não vai alinhar. Estas manifestações são noutras histórias. Filmes e coisas qu...

A Presidenta

Sim, votei Marisa Matias. E foi uma escolha pensada e ponderada. Não foi voto útil nem voto de protesto, foi um voto pela mudança necessária na politica e vida portuguesa. Gosto da Marisa Matias desde que vi as intervenções no parlamento europeu e depois quando se deu o desaparecimento do Miguel Portas. Marcou-me a postura, o discurso, a lógica, a garra, ser mulher e ser da minha geração. Acredito que chegou o momento das mulheres se apoiarem e de começarem a mostrar o que valem. Chegou o momento dos mais velhos cederem a governação aos mais novos e chegou o momento dos homens cederem espaço para que as mulheres possam intervir mais e melhor na vida politica. Podendo uma mulher ser: mãe, filha, prima, amiga, colega e tudo o mais que uma mulher é, sem que isso comprometa o seu desempenho. Somos mulheres e não somos mulheres disfarçadas de homens. Passámos séculos a acreditar que para chegar a algum lado tínhamos de ser iguais aos homens. Não quero com isto dizer que...

Uma chamada basta.

"Os românticos diziam que a morte é o desaparecimento do outro porque na verdade como é que eu posso conhecer o desaparecimento de mim. Penso nisto e olho para o telefone. Penso em ti. O que é que não se tornou um lugar comum." [Ana Hatherly (1929-2015), in 463 Tisanas]* *Roubado ao Carlos Vaz Marques no Facebook do próprio.

Perde o juízo e vem

Podia começar assim a chamada ou um simples pedido: perde o juízo e vem! Assim sem mais nem menos, sem grandes rodeios, directo e curto: perde o juízo e vem! E o peito enche-se de ar, o coração acelera, tudo treme e vai-se assim, sem juízo, sem rede, sem nada, só porque sim. Porque se perdeu o juízo numa qualquer loucura imaginária que se sente na pele, só porque naquele dia tínhamos de ser diferentes do habitual. E vai-se. Fechas os olhos e sentes cada bocadinho do juízo (aquele que tanto valorizas) a sair por todas as células, está a ir-se, vai-se purgar para mais tarde voltar, mas não hoje. Precisa redefinir-se para voltar melhorado, deixa-o ir, não penses muito. O suor escorre por todo o lado, é o medo de perder o juízo para sempre, para todo o sempre (mesmo não tendo garantias que o nosso juízo é saudável, é nosso…) o juízo que é meu por direito e conquista, está-se a ir, com autorização, porque eu hoje vou! Vou, vou e vou, está decidido. Mas não consigo sai...