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Pessoas Especiais

A vida brinda-nos com pessoas maravilhosas, uma vez por outra. Quando temos sorte, quando nos portamos bem. Pessoas que nos estimulam os sentidos. Que falam de coisas que nunca ouvimos, como se fossem banais. Que nos obrigam a descobrir todo um mundo novo. Pessoas que sabem usar as palavras sem medo. Que nos confrontam com elogios e verdades que pouco ou nada ouvimos. Que nos fazem pensar. Pessoas que se apaixonam por nós, que nos amam sem reservas ou necessidade de indícios. Que nos fazem acreditar que podemos ser especiais. Que temos mais do que sabemos. Criaturas únicas de gostos singulares. O que contam soa a música com uma sonoridade única. Almas fabricadas noutros lugares, que se cruzam connosco por acaso. Acasos de pura sorte ou destinos combinados noutras paragens. Seja lá o que for, restauram a crença em toda a humanidade! É possível! Existem, são verdadeiros! Acontecem e andam por ai, aqui do outro lado do oceano, na nossa rua, a meia dúzia de quilómetros, na ou...

Atalhos

Um dia percebes que conheceste a pessoa certa, no tempo errado. E não é um tempo errado qualquer, é viverem separados por dois anos: um em 2004 e outro em 2006. Ou viverem no mesmo tempo separados por quilómetros e a dez anos de distância, também acontece, mas não na história do filme que vou falar. No filme “A Casa do Lagoa” é isso que acontece. A Kate e o Alex viveram na mesma casa em tempos diferentes e partilham correspondência, segredos, confidências a acabam por se apaixonar. O que o filme mostra é que para haver amor, tem de haver profundidade e tempo para se descobrir e conhecer o outro. A diferença temporal, faz com que eles cedam com o conforto da distância a expor-se. São mais sinceros, mais verdadeiros, perdem o receio de falar sobre eles, do que gostam e das coisas que os atormentam. Claro que à medida que vão descobrindo que se estão a apaixonar, torna-se cada vez mais difícil gerir a distância e aprender a lidar com os sentimentos e com o desejo. A realidade ...

Coragem

Quiseste que se fizesse silêncio. Um silêncio forçado. Um novo interregno de dez ou mais anos. Quem está a contar?   Eu não, seguramente. Deixei de contar o tempo há muito tempo, passei apenas a deixar-me ir, como quem bóia no mar ao sabor da corrente e da ondulação. O que tiver de ser será. Sabemos disso.  Talvez o futuro seja mais generoso que o passado e possamos reajustar o que foi com o que é. Acreditar, que as suposições de hoje serão concretizações de amanhã e que nem toda distância do mundo nos irá conter.  Vou acreditar que seremos mais corajosos no futuro e que deixaremos a cobardia de antes e de agora bem longe das nossas intenções.  Vou aceitar que iremos cumprir os nossos desígnios com a grandiosidade que merecem. Vamos finalmente aceitar o inevitável de todas as improbabilidades e fintar o destino.  Hoje ainda não, manha ou depois...

Lullaby

Se não fora a noite, o azul que me ilumina quando falas e deixo que me mintas, não acontecia. O torvelinho que me aproxima de ti é da cor dessa intensidade que pões em gestos descuidados, soltos, impediosos, marcados pela voracidade da minha resistência e da pela deambulação do teu olhar. Só à noite a impulsividade de um e a inquietude de outro se conseguem cruzar, nada é tão menos claro como dois estranhos que se leem bem sem sairem das sombras. Um esconde-se, o outro finge. Um exibe força, o outro dissimula ausência. Um cerra fileiras, o outro magoa. Ninguém quer ficar à medida que o sol eclode. A noite tarda a dar lugar a horas menos consumiveis. Não me consegues arrumar nos passos que dás, a musica já não é a mesma, a tensão aumenta com a distância e o frio tem uma dimensão mais profunda que tatuagem.  Só à noite me consegues tocar, toda a noite, aproximar-te pel'a noite, como se só toda a noite fosse o que tivessemos como trunfo, arma, penitência e derradeira forma de nos...

Distância de Segurança

Vamos manter-nos assim. Tu aí e eu aqui. Criámos fronteiras de coisas, barreiras de rotinas e normalidades e mais algum lixo da vida real. O tempo que não se tem para se fazer tudo o que se precisa como pretexto para não continuar a fazê-lo. E eu gosto de tempo… de ter muito tempo para dispor dele como entender. Para me dispor a sentir o tempo como deve de ser. A vida é feita de contrastes, sou a primeira a cumprir a regras. Sigo uma linha condutora imaginária que me alinha o caminho mas que nem sempre me alinha o espírito (quase nunca me alinha o espírito). Gosto da supressão das bermas, quando me esbarro com estes sinais na estrada, sei sempre que são para mim. Mantém-te aí em linha com o caminho, como se a berma não pudesse ser uma alternativa. Quem disse que o certo é o a direito ou em linha reta? E ficamos assim, eu aqui e tu aí. Assustam-me os efeitos secundários todos, aqueles que desconheço e os que sei que acontecem quase sempre. As coisas que não se controlam...