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Para o meu avô

O meu avô faria hoje 90 anos. Não gosto de usar o verbo nesta forma: "faria" mas parece que é assim que tem de ser, quando a presença física de uma pessoa parte para outra dimensão.

Porque hoje faria 90 anos, dei por mim a pensar que já vivi mais tempo sem o meu avô do que com ele. Mas por outro lado, a proporção do tempo não condiciona em nada, o meu afecto por ele, a intensidade do que vivemos, a saudade ou a nossa história comum. Tenho pena que não tenha sido mais tempo e não que tenha sido pouco, o que é substancialmente diferente. O pouco foi bom, cresceu comigo e alimenta-me todos os dias. Podemos viver intensamente em 24h o que nunca viveremos em alguns anos, algumas coisas são assim. Vivi treze anos da minha vida com o meu avô e até agora vinte e dois sem ele... é muito. Mas as contas não podem ser feitas assim, tão certas com o ritmo da vida, porque na nossa vida passam pessoas que simplesmnente passam e outras permanecem, ambas com relevâncias diferentes, e o meu avô permanece em mim em todas as partículas. É daquelas pessoas que ficam na alma, porque mais do que ser meu avô, era importante. 

O meu avô era uma pessoa consensual, nunca conheci ninguém que não o estimasse. Era um homem de carácter, genuíno, simples, para mim um exemplo de pessoa. Teria os seus defeitos, como todos nós, mas visto aos olhos de uma criança quase imperceptíveis.
O cheiro da espuma de barbear do meu avô é uma das memórias olfativas que guardo dele, assim como o cheiro do granulado dos coelhos, o feno, o arrolar das rolas pela manhã... Impossível esquecer é também o assobio a que os cães obedeciam. A pele morena, as veias das mãos, o chapéu preto de feltro, o maço SG Gigante, a letra trabalhada, os jogos de dominó, as histórias que nos contava sem se cansar...

Recordo um passeio que demos na mata de Monsanto, onde se encontram vários pontos com exercícios para os treinos dos militares. Eu quis pendurar-me nas argolas e ele pendurou-me lá, esticada de pés a boloiçar nem um minuto aguentei... recordo-me de ter chamado "avô, já chega" quase entre dentes e sem folego... ele nem reclamou. Podia ter dito, "eu avisei-te"... mas nada, continuamos nas brincadeiras caminho a fora, eu a minha irmã, os meus primos e os cães. São assim as coisas que recordo... estes momentos de felicidade, para mim como criança eram os suficientes. 

Na verdade, continuam a ser estes momentos simples que me fazem feliz. Acho que foi por causa do meu avô. Os nossos momentos foram sempre assim. Obrigado avô!

Um beijinho cheio de saudades.

(29 Janeiro 1924 * 2 Março 1992)

Aqui estamos nós à pesca :) no Algarve, na nossa praia, a Galé.

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