Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Memórias Boas

E se as coisas tivessem acontecido de forma diferente? Fica sempre a dúvida no ar, como uma incerteza que se alimenta pelo vazio deixado. Podia ter sido diferente? Poderia ter sido diferente, se para a morte existisse algum tipo de retorno ou emenda. Mas não existe e foi assim que aconteceu e não se pode mudar. Ainda assim, sabendo e aceitando que teve de ser como foi, não muda a curiosidade que ficou por preencher nem a vontade de conhecer melhor alguém que nos quis tão bem. Sabe-se o que os outros contam e relembram-se partes do que se viveu. De lá para cá já passou uma vida, 27 anos de uma ausência que nunca se ocupa. Daquele ano horrível, tenho de ti duas memórias que me marcaram.  A primeira, a felicidade de fazeres 70 anos como se tivesses chegado ao topo da tua montanha! Sem saberes, estavas lá pronto para embarcares para outra aventura, genuinamente feliz por teres reunido a tua família para comemorar o teu aniversário. Sempre gostei de fazer anos e depois des...

Picachu será sempre Picachu

"Aqui tem você um conselho que lhe poderá servir para a sua filosofia: não force, nunca; seja paciente pescador neste rio do existir. Não force a arte, não force a vida, nem o amor nem a morte. Deixe que tudo suceda como um fruto maduro que se abre e lança no solo as sementes fecundas. Que não haja em si, no anseio de viver, nenhum gesto que lhe perturbe a vida" . (Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo). Foi assim com a minha Picachu até hoje, o fim. Não se forçou a vida e só se forçou a morte por amor e compaixão, a vida é para se viver sem sofrimento e ela já não estava a conseguir corresponder às minhas expectativas nem da veterinária, mesmo dando tudo por tudo! Cada um tem o seu tempo e o seu espaço, é preciso saber e aprender a respeitá-lo. Vale para todas as formas de vida. E como foi maravilhoso ter na minha vida a gata mais meiga e louca da história da humanidade! Que dádiva esta que tive o privilegio de viver! Sim, perdi a minha Picachu. E tudo o q...

Humanidade

Será que ciência nos tornou preguiçosos?  Hoje tudo o que é válido e correto tem de passar pelo crivo científico para ser considerado "verdade" e antes da ciência como era? As pessoas encontravam validação onde e como? Perdeu-se a capacidade de saber ver, ouvir e ler tudo o que nos rodeia e o nosso próprio corpo. Antes de existirem computadores, máquinas, matemática, física ou química com o nível de desenvolvimento que temos hoje como se fazia para validar? Os curandeiros sabiam de plantas e entendiam os sinais do corpo. As pessoas regiam-se pelo ciclo da natureza, o nascer e o pôr-do-sol, as estações, a subida e descida das marés, os ciclos reprodutivos dos animais e das plantas. Olhavam para o céu para se orientar, sabiam interpretar o vento e respeitavam a cadência natural das coisas, sem manipular ou apressar. Sabiam respeitar a ordem natural das coisas e os seus tempos. Estavam mais despertos para os ruídos e cheiros desconhecidos, sabiam definir distâncias pel...

O vício do sofrimento

Viver é uma coisa que dá muito trabalho. Não existem propriamente momentos calmos ou mortos, estamos em testes permanentes e desafios que se vão sucedendo. Podemos escolher ignorá-los, mas vamos acabar por ter de passar por eles, a bem ou a mal. A parte mágica disto tudo é que cada vez que superamos um desafio ou um obstáculo sentimo-nos ainda mais vivos e com uma prova maior da nossa própria capacidade de sobrevivência. Não é fácil estarmos sempre nesta incógnita do que o futuro nos reserva, o que nos deveria fazer pensar que afinal, não temos de saber ao certo o que ai virá, mas precisamos preparar-nos para o que vier, toda e qualquer preparação acontece no presente. E se não temos forma de adivinhar o futuro, temos o dever de nos concentrarmos no agora, essa é sempre a melhor solução. Independentemente dos desafios que cada um de nós terá, somos livres para escolher o tipo de vida que queremos viver. Nem vale a pena recorrer ao argumento já gasto e bem gasto, da herança gené...

Não sou o Picasso

“Eu não sou nenhum Picasso”.  Foi uma justificação que usei várias vezes para legitimar não ter seguido para as Belas Artes. Não só porque efetivamente não sou o Picasso, em forma ou em talento, mas também porque infelizmente continuo com a convicção que Portugal é um pais que trata muito mal os seus artistas e quem vive da arte, como se fosse uma “profissão menor” ou pior penaliza quem por um amor maior se entrega à dança, pintura, teatro, música, escultura, literatura como se de um hobby se tratasse e como tal, não merecesse nem o reconhecimento do Estado ou da Sociedade para condições de trabalho dignas e consequente justa remuneração. Os artistas são umas parasitas, só um Picasso não seria. Estamos a anos-luz, de uma mentalidade artística que saiba valorizar quem se dedica à arte pela arte. Visitamos museus, exposições, concertos, vamos ao teatro… mas não consideramos todo o trabalho que é feito pelos artistas e por todos os outros artesãos. Se é para ter um diploma qu...

A Bondade

É comum ouvirmos dizer e até dizermos: "tenho-me portado tão bem que mereço um prémio" ou "só por ter feito/pensado nisto, devias dar-me uma recompensa" são muitos os exemplos possíveis. As questões do certo e errado, do bom e do mau e das compensações que merecemos pelo bem que fazemos aos outros e a nós próprios, são ideias que nos "vendem" e que têm como principal objetivo fomentar o bom desempenho e de certa maneira estimular a competição entre todos. Os que executam boas ações recebem mais compensações, afinal de contas merecem-nas. É lógico que as boas ações e intenções, quando cumpridas com profunda entrega nos fazem sentir bem, a bondade dizem alguns estudiosos nos temas do comportamento humano é saudável e a base para um cérebro mais sadio. “Só assim poderemos reduzir o sofrimento no mundo. Acredito na gentileza, na ternura e na bondade, mas temos que nos treinar nisso.” - Richard Davidson, PhD em neuropsicologia e pesquisador na área de...

Um jornal no comboio

A distribuição de jornais gratuitos nos transportes é uma ocorrência banal que acontece todos os dias. É comum ver-se as pessoas entretidas a lê-los no comboio e a depositarem-nos depois disso num banco vago, entalá-los semi disfarçadamente entre bancos ou no chão (sim, também acontece). A forma como as pessoas fazem estas coisas deixa-me perplexa, com uma agravante, não consigo disfarçar. Não consigo entender o que custa levar o jornal até ao caixote do lixo, não é o Expresso!!! É um jornal que tem pouquíssimas páginas. Hoje testemunhei uma destas cenas, uma senhora que ia uns bancos ao meu lado a ler o jornal, depois de ter acabado pega no jornal e encaixa-o entre as suas costas e as costas do assento. Sim, é verdade!! Ali bem esmagado entre a blusa da senhora e as costas do banco, uma maravilha! Como imaginam fez tudo com muita naturalidade, afinal de contas o jornal estava lido. Arrumou os óculos na caixinha ajeitou-se e ali ficou até sair umas paragens mais à frente. Quand...