Avançar para o conteúdo principal

Articular palavras

 Arte, saber, domínio. Dom.

Tenho alguma dificuldade em conseguir articular verbalmente tudo o que consigo escrever. Quando escrevo, oriento as ideias, elimino partes, mudo os sentidos, consigo encadear as palavras de forma lógica e orientada. Fazem sentido assim, querem dizer isto assim ou mais. O que é claro fica mais claro, os subentendidos mais sofisticados. Posso refletir, corrigir, reescrever, apagar tudo, voltar ao inicio. Escolho o tom que quero e como quero. Exponho mais ou menos consoante a minha vontade. Digo tudo e não digo nada. Quando escrevo o raciocino flui, não se sobrepõem como nas conversas. Dá espaço para que diga o que gostaria de dizer, bonito, feio, forte ou fraco. 

O tom da minha voz atrapalha-me, o som das palavras mistura os contextos, já não sei o que quero dizer com principio, meio e fim. Nunca digo tudo ou digo mal, ou esqueço de metade. Não domino esta arte, o bom discurso tem de ser escrito primeiro. Ou bem treinado. Ou temos de ter o completo conhecimento do tema de que se fala: a preparação.

Posso treinar uma vida inteira de conversas imaginárias. Quando isto acontecer, vou dizer isto. Não digo, depois atrapalho-me. Deixo-me ir. Acredito nalguma coisa que não estava à espera, oiço o que quero. Metade fica por dizer, mesmo depois de tantos ensaios. 

No papel fica tudo na cadência que se pretende. Nem mais nem menos. Fica registado na ordem certa, as palavras todas, o contexto alinhado pela história que se projeta e que no papel se conta do principio ao fim na ordem temporal certa. Penso mais rápido do que falo, penso mais rápido do que escrevo: quando falo perco informação e muitas das palavras ficam entaladas na garganta, presas. Quando escrevo quase nada me escapa. 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Não devemos voltar a onde já fomos felizes

Hoje acordei com esta expressão na minha cabeça: “não devemos voltar a onde já fomos felizes”. Sempre que penso nisto, e cada vez mais me convenço, que está completamente errada. Na prática, acho que a expressão tem a ver com pessoas e não com lugares. Não voltarmos a onde já fomos felizes, ou seja, não voltar para determinada pessoa. O local acaba por vir por acréscimo, já que as memórias não ficam dissociadas de situações, locais ou pessoas. Mas é sempre por aquela pessoa específica, que não devemos voltar atrás e não pelos  momentos felizes que se viveram naquela praia ou no sopé daquela montanha. É o requentado que não funciona… ou não costuma funcionar. Acredito que para algumas pessoas dê resultado, mas de uma forma geral, estar sempre a tentar recompor uma situação que não tem concerto, não tem mesmo solução! Mesmo quando existe muito boa vontade e uma boa dose de amor. Voltando aos locais, que é isso que me importa. A história reescreve-se as vezes que forem...

Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga!

Não sei como funciona com o resto das pessoas, mas eu quando abuso o meu corpo arranja maneira de me dizer: basta! E foi isso que aconteceu… uma mega gripe, para ver se recupero o sono todo que não tenho dormido e uma bela crise de fígado para reajustar hábitos! Quando não se aprende a bem, aprende-se a mal. Achei que era importante falar sobre isto, porque quando se partilham experiências, normalmente descobre-se que não é um problema exclusivo ou uma coisa só nossa. Comigo funciona assim, eu sou do tipo de pessoa que acumula tudo muitas vezes sem exteriorizar… é defeito e feitio. E como 2013 tem sido um ano rico em situações complicadas, eu deixo para depois sentir na pele os efeitos diretos, porque no imediato tenho de agir para resolver, fica para mais tarde chorar ou rir se tiver de ser. Depois dá-se o colapso… Desta vez até foi ligeiro, mas não deixa de ser um aviso. No ano em que terminei o mestrado ai sim, os avisos foram marcantes. Quando a ansiedade se descontrola, tudo ...

Para a minha avó Rosa

Nesta foto estamos nós as duas.    A avó que sem saber já se estava a perder n a memória d o tempo e eu, que olho para ti e vejo a mesma de sempre, mesmo sabendo que já não eras.    As fotografias têm destas coisas, imortalizam os momentos. Este passado que se torna presente, todas as vezes que volto a recordar estas fotos. Nunca serão futuro apesar de registarem detalhes que farão parte do meu presente e futuro , sempre.    Devo confessar que revisitar as fotos da minha avó não me deixa triste nem evito fazê-lo. Sinto saudades dela, sim muitas, tenho inveja das netas por quem passo na rua de braço dado com as avós, tenho ! Queria poder fazer o mesmo, mesmo sabendo que o que vivemos foi bom. Foi nosso e apesar de não se repetir, já não se perde , e esse é um tesouro que valorizo.    Recordo as minhas avós todos os dias, a maior para das vezes de forma inconsciente e involuntária. Uma situação simples e corriqueira, leva-me a elas. Relembra-me m...